ATENÇÃO

ATENÇÃO

>> Publicidade Vip

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Ex-andarilho João Gordinho morre em Bom Jardim

O ex-andarilho João Gordinho, que foi tema de uma reportagem publicada pelo Diario no último domingo (1º de abril), faleceu na noite de quinta-feira, às 21h30, em sua casa, no município de Bom Jardim. Aos 57 anos, ele sofria de diabetes e já havia tido um pé amputado. O enterro será às 14h no cemitério da cidade. João José da Silva percorreu mais de 20 mil quilômetros em Pernambuco e na Paraíba.

Leia a matéria publicada no último domingo, escrita pelo repórter Jailson da Paz:
Destino. De significados discutíveis, a palavra tem um único para João José da Silva. A compreensão de sorte, fado ou fortuna jamais encontrou apoio no seu “pouco conhecimento”. Destino, para ele, é providência divina. A justificativa está na sua história. Ou melhor, de João Gordinho, como ficou conhecido esse senhor de 57 anos. Há dois anos amputaram-lhe o pé esquerdo por conta do diabetes. Ao salvá-lo, tiram-lhe também o que mais gostava: caminhar. João Gordinho ganhou fama nos agrestes e sertões como andarilho. Foram, numa soma rápida, pelo menos 20 mil quilômetros percorridos em Pernambuco e na Paraíba.

Preso a uma cadeira de rodas, em Bom Jardim, distante 115 quilômetros do Recife, João Gordinho vive mais do passado. “Se eu recuperar minhas forças, quero andar. Andar por onde andei”, confessa. Aí reside a justificativa para sua definição de destino. Menino raquítico, conseguiu andar somente aos 8 anos. Antes, arrastava-se. Gostou tanto de caminhar que aos 14 anos saiu de casa, em João Alfredo, lugar de nascimento, no Agreste pernambucano, para a vizinha Salgadinho. Os quase 13 quilômetros percorridos a pé abriram-lhe horizontes, os de que podia conhecer novos lugares e novas pessoas. Era uma caminhada, a seu ver, para a liberdade. 


Várias andanças
 

João acreditou nisso. Deixou de lado o temor de apanhar da mãe, risco que correu na primeira experiência, e aventurou-se. Depois de Salgadinho vieram outras 66 cidades e vilas. Em algumas esteve diversas vezes em 40 anos de andanças. “É muita coisa, não é?”, questiona mais a si do que aos frequentes visitantes de sua casa de poucos móveis. Se alguém ousa duvidar, João circula mais uma vez, em um exercício de memória, pelos lugares em que pisou. A lista dos pontos visitados é repetida, sem titubeios, em 63 segundos: “Vitória, Carpina, Bezerros, Nazaré da Mata… Cruz de Pedra, Buraco do Tatu. Taó, São Vicente, Simão”.
Rotas desconhecidas

Algumas vezes, o andarilho perdia-se na procura de novos destinos. Andava quilômetros por rotas desconhecidas. Assim, chegou à distante Cajazeiras, na Paraíba, a 429 quilômetros de João Alfredo. No começo, as andanças eram com um saco nas costas. Dentro, roupas velhas, um prato e um copo de plásticos e uma colher. Outro saco foi necessário à medida que se tornou conhecido. Ali, carregava livros, brinquedos, LPs e CDs. Ele ainda guarda parte dessa herança. “Ganhava de tudo. Tinha direito até a recantos para tomar banho, comer e dormir. Ficava no terraço, às vezes. Outras, em “quartinhos de fundo de quintal”. 


Quando a solidariedade sumia, restavam as calçadas e as marquises dos prédios públicos. Viveu tanto em tais pontos que é capaz de situá-los por ruas em algumas cidades. Dessas cidades, conhece os nomes de todas ruas.“Tem rua com dois ou três nomes”. Ele conhece essas variações, assim como aprendeu o nome de muitos moradores. Na maioria, meninos e meninas que pediam ao andarilho para cantar de nariz tapado. Ou pediam para fazer origamis. Ao dar vida a animais e objetos dobrando papel, João Gordinho tornava-se amigos das crianças. Algumas cuidam hoje do andarilho.
Sustento sem mendigar
O passado para João Gordinho encontra sentido apenas de três anos para trás, quando podia andar livremente. A partir dessa data, tudo é presente. E o presente lembra dor e limitação. As costas e os braços incomodam. O corpo já não se sustenta de pé sozinho. “Encontramos João como indigente em um hospital de Limoeiro”, conta o professor José Célio Gomes de Sousa, que tornou-se tutor legal do andarilho. Na época, o pé esquerdo de João havia sido amputado. A sobrevivência do fazedor de origamis dependia da boa vontade das pessoas. José Célio, com o aval da Justiça, conseguiu-lhe a aposentadoria. O salário mínimo repassado pela Previdência Social assegura o pagamento do aluguel da casa e de uma cuidadora e a compra de alimentos. Pela primeira vez, o andarilho se sustenta sem mendigar.

Pedir nunca constrangeu João Gordinho. “Sempre tinha alguém que me ajudava”, disse. Mas o andarilho esqueceu de si. Antes de seguir para o hospital em Limoeiro, nunca havia procurado um médico. Escolhia seus próprios remédios. Acreditava que “vitaminas” não tinham contraindicações. Nem mesmo para o diabetes. João Gordinho descobriu o caminho dos “fortificantes” no meio em que nasceu. A família, do Sítio Campos do Borba, pouco acesso teve a escola e a médicos. Primogênito de três filhos, perdeu a mãe quando estava a quilômetros de João Alfredo. A andança o afastou da família. Apesar do isolamento, tornou-se uma lenda. Seu nome é lembrado em várias cidades de Pernambuco e da Paraíba. E faz várias pessoas voltarem ao passado. “João era motivo de festa quando eu voltava da escola”, revela a agente de saúde Maria Alice Oliveira, 47. Pela festa do passado, Maria Alice dedica parte do seu tempo a cuidar do andarilho do Agreste.

Nenhum comentário:

Postar um comentário